Engenheira elétrica, Ludmilla iniciou carreira buscando superar todas as tachações que a afastavam da função
Aos 55 anos, a engenheira elétrica Ludmilla Campos é gerente geral da unidade Pecém da alemã Wobben Windpower. Há 15 anos na empresa, começou como coordenadora de Garantia da Qualidade e hoje lidera 360 pessoas, sendo 50 mulheres. Em 10 horas de trabalhos diários na fábrica, toma decisões em 100% do tempo. "Num ambiente masculino como o de fábrica, você é tratada como se coloca", reflete.
A profissão foi uma influência do pai que era rádio amador e tinha uma oficina. "Somos quatro filhas mulheres. Sou a mais velha e ficava com ele", recorda-se. A gerente comenta que sempre teve na cabeça que não seria suficiente apenas casar e ter filho, queria uma realização profissional. "Casamento é muito bom, mas não traz essa realização. O que traz é aquilo que a gente produz", acredita.
Carreira
Logo após se formar, em 1984, vieram os primeiros desafios com a questão de ser mulher na área de engenharia elétrica e a falta de empregos da época. Por intermédio de uma conhecida, que assumiu a Ferragens e Aparelhos Elétricos (FAE), conseguiu seu primeiro estágio.
"Recordo que ela disse: 'estou oferecendo o estágio e o resto é por sua conta'". Com o término do estágio, a chance de ficar na empresa foi por meio de avaliação para construir uma máquina para testar curto-circuito. Passou e foi contratada.
Desafios
Ludmilla considera que os primeiros anos foram difíceis no sentido de se cobrar muito. "Eu tinha que ser muito melhor que os homens para permanecer". Hoje, ela não pensa mais na questão do sexo e enxerga um profissional independente de homem ou mulher. O primeiro diretor disse a ela que quando a entrevistou a achou muito pequena e muito enfeitada.
"Muito 'perua'. Pensou que não iria ter permanência e que não vingaria", diz rindo. Na FAE, entrou como engenheira e saiu como gerente de Materiais.
Depois, trabalhou na atual Durametal, antiga Metaneide, por quatro anos, na área de certificações ISO - na época, novidade no Brasil. Em relação a ser mulher em um ambiente cujo o sexo masculino ocupa a maioria dos postos, Ludmila disse se sentir um pouco mais nesta fase da vida profissional, pois os segmentos nos quais entrou para trabalhar eram de fundição e usinagem, com trabalhos mais pesados e de nível de escolaridade menor entre a equipe, o que dificulta a penetração das mulheres. "Mas a experiência anterior ajudou a superar mais rápido", afirmou, relembrando a perseverança que a fez superar esse sentimento inibidor.
Saindo da empresa, passou um período trabalhando por conta própria, dando consultorias até entrar na Wobben Windpower, em 2001. Após três anos como coordenadora, o reconhecimento mundial da unidade na qual trabalha, em relação à qualidade, propagou-se e veio a primeira indicação para a gerência da fábrica de pás. "Só existia eu e outra mulher na fabricação de pás no mundo. Isso foi em 2005", comenta. E em 2007, assumiu a gerência da unidade do Pecém.
Habilidade
Entre as vantagens de ser mulher, para Ludmilla, estão a flexibilidade e a visão de diferentes ângulos para uma mesma situação. "Pela minha educação feminina, consigo discernir os momentos que tenho que ser mais firme ou que os colaboradores precisam de mais conforto. Isso acaba facilitando num processo de gestão. Se vamos com muita dureza, obtemos os resultados de forma mais difícil. Sou muito boa de observação e de identificar se tem coisa errada no ar", constata a gerente.
Salão de beleza
Casada e sem filhos, ela aproveita os poucos momentos em casa principalmente para ler e ver filmes. Vaidosa assumida, diz que sempre anda 'escovada' e frequenta duas vezes o cabeleireiro na semana para fazer escova e uma para pintar as unhas. "Cuido rigorosamente da pele", destaca. Para evitar tachações, ela conta que, no ambiente profissional, nunca usou vestido, transparência ou decotes.
"Fora, eu gosto de usar", diz. Como sempre trabalhou e liderou homens, na fábrica, calça jeans ou social e camisa manga comprida são seus trajes mais usuais. "Até chego com sapato de salto, mas tiro para colocar o sapato industrial", informa. Na maquiagem, apenas batom. Acessórios como brincos, pulseiras e anéis sempre discretos para não causar qualquer tipo de acidente. (CK)